Como consequência de todas as transformações da transição entre o séc.XIX e o XX -- ou talvez apenas como contraponto --, crescem tensões sociais e políticas por toda a Europa que viriam a resultar na primeira guerra mundial.
Na sequência dos esforços de expansão já antes iniciados nas Américas e na Ásia (lembrem-se que, nesta época já se celebrava o centenário da independência dos Estados Unidos da América), a necessidade de obter matérias primas para a indústria empurra os principais países europeus para a África. Em Portugal, a independência do Brasil e o fim da escravatura deixam o país sem importantes fontes de rendimento e de fornecimento de matéria prima.
Portugal leva (mais passiva do que activamente!) os imperialistas europeus a regulamentar, em Berlim (em 1884 e 1885), a posse das terras africanas, tentando garantir uma ligação portuguesa entre as duas costas do continente negro; e inicia expedições para conseguir tratados de vassalagem dos povos autóctones.
O mapa cor-de-rosa, desenhado para unir Moçambique a Angola, colorida bandeira de paixões patrióticas, desfraldada aos ventos europeus, foi mais tarde posto em causa pela Inglaterra que fez um ultimato a Portugal.
"[…]Portugal era um pequeno estado, fraco e atrasado[…], virtualmente uma semi-colónia da Grã Bretanha; e só os olhos da fé podiam descobrir qualquer traço de desenvolvimento económico. Apesar disso, Portugal continuava a ser um membro do círculo dos estados soberanos e um vasto império colonial, graças à sua História; e conservava o seu império africano, não só porque as potências rivais europeias não conseguiam decidir como reparti-lo mas também porque, sendo um país 'europeu', as suas possessões não eram consideradas como objecto de conquista colonial." Hobsbawn, Eric (2007, p.22)
O Ultimato Inglês, de 1889, que ameaçava guerra a Portugal se não acabasse com o projecto do mapa cor-de-rosa, provocou mal-estar na sociedade portuguesa e deixou um forte vinco de humilhação durante décadas.
domingo, 19 de outubro de 2008
Fim de século, triunfalismo e desassossego
Os últimos anos do século XIX e primeiros anos do século XX são o palco de um ingénuo e eufórico despertar de vontades individuais. Muitos europeus tiveram, pela primeira vez em tão larga escala, a percepção de que poderiam moldar a sociedade à luz daquilo que eles próprios pensavam que a sociedade poderia ser. Tinham ideias, defendiam valores, acreditavam que um sistema político era melhor que o outro, tinham à sua frente a promessa de que a ciência resolveria todos os males do mundo e a economia liberal lhes permitiria a riqueza para sustentar os seus sonhos. Criaram-se nesses anos as personalidades que marcaram a história do mundo até aos dias de hoje, para o bem e para o mal.
"Em 1914, Vladimir Ilic Uljanov (Lenine) tinha 44 anos; Josif Vissarionovic Dzugasvili (Estaline) 35; Franklin Delano Roosevelt 30; J. Maynard Keynes 32; Adolf Hitler 25; Konrad Adenauer (pai da república federal alemã depois de 1945) 38; Winston Churchill 40; Mahatma Gandhi 45; Jawaharlal Nehru 25; Mao Zedong 21; Ho Chi Min 22; Josip Broz (Tito) 22; Francisco Franco Bahamonde (Generalíssimo Franco) 22; Charles De Gaulle 24; Benito Mussolini 31". Hobsbawn, Eric (2007, p.6)
O rápido crescimento da economia, em simbiose com o progresso científico e tecnológico, permitiu o desenvolvimento do comboio, do automóvel, do navio, permitindo grande mobilidade de gente e produtos; permitindo o surgir de um largo número de actividades industriais consumidoras de mão-de-obra, geradoras de riqueza, por um lado, e de assimetrias, por outro, colocando a Europa numa situação de grande transformação social.
"Entre 1870 e 1913 a população mundial passou de 1175 a 1723 milhões, o que implica um aumento de cerca de 50%. A Europa neste período continua a manter-se como centro demográfico do mundo, não apenas porque contém uma quarta parte da população total mas também porque dela saem emigrantes para outros continentes, especialmente para as zonas desertas da Oceânia e também para o mundo africano". Prada, Valentin V. de (1992[1966], 180)
A burguesia liberal aproximou-se mais dos proletários, as mulheres assumiram papel mais activo na sociedade e, fruto de alguma emancipação, integraram-se cada vez mais na máquina produtiva e na vida socio-cultural.
"In fashion history terms time never stands still. In the Edwardian era, new influences and a changing society in a young century began to challenge the stiff formality that prevailed. In the years between 1905 and 1918 clothing styles emerged that were evolutionary in bridging the gap between the rigid formality of the Edwardian styles and the ultimate changes that led to the knee high dresses of 1926."
Pasted from <http://www.fashion-era.com/1914_1920_towards_dress_reform2.htm>
Bibliografia:
Hobsbawn, Eric ,2007. L'Età degli Iperi. 1975-1914, Roma-Bari:Laterza
Prada, Valentin V. de, 1992. História Económica Mundial, II-Da Revolução Industrial à Actualidade. Barcelos: C. Editora do Minho
"Em 1914, Vladimir Ilic Uljanov (Lenine) tinha 44 anos; Josif Vissarionovic Dzugasvili (Estaline) 35; Franklin Delano Roosevelt 30; J. Maynard Keynes 32; Adolf Hitler 25; Konrad Adenauer (pai da república federal alemã depois de 1945) 38; Winston Churchill 40; Mahatma Gandhi 45; Jawaharlal Nehru 25; Mao Zedong 21; Ho Chi Min 22; Josip Broz (Tito) 22; Francisco Franco Bahamonde (Generalíssimo Franco) 22; Charles De Gaulle 24; Benito Mussolini 31". Hobsbawn, Eric (2007, p.6)
O rápido crescimento da economia, em simbiose com o progresso científico e tecnológico, permitiu o desenvolvimento do comboio, do automóvel, do navio, permitindo grande mobilidade de gente e produtos; permitindo o surgir de um largo número de actividades industriais consumidoras de mão-de-obra, geradoras de riqueza, por um lado, e de assimetrias, por outro, colocando a Europa numa situação de grande transformação social.
"Entre 1870 e 1913 a população mundial passou de 1175 a 1723 milhões, o que implica um aumento de cerca de 50%. A Europa neste período continua a manter-se como centro demográfico do mundo, não apenas porque contém uma quarta parte da população total mas também porque dela saem emigrantes para outros continentes, especialmente para as zonas desertas da Oceânia e também para o mundo africano". Prada, Valentin V. de (1992[1966], 180)
A burguesia liberal aproximou-se mais dos proletários, as mulheres assumiram papel mais activo na sociedade e, fruto de alguma emancipação, integraram-se cada vez mais na máquina produtiva e na vida socio-cultural.
"In fashion history terms time never stands still. In the Edwardian era, new influences and a changing society in a young century began to challenge the stiff formality that prevailed. In the years between 1905 and 1918 clothing styles emerged that were evolutionary in bridging the gap between the rigid formality of the Edwardian styles and the ultimate changes that led to the knee high dresses of 1926."
Pasted from <http://www.fashion-era.com/1914_1920_towards_dress_reform2.htm>
Bibliografia:
Hobsbawn, Eric ,2007. L'Età degli Iperi. 1975-1914, Roma-Bari:Laterza
Prada, Valentin V. de, 1992. História Económica Mundial, II-Da Revolução Industrial à Actualidade. Barcelos: C. Editora do Minho
domingo, 21 de setembro de 2008
A propósito deste silêncio
Deixo-vos um poema do escritor brasileiro Jorge Kilkerry.
É O SILÊNCIO
É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa…
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas… Comovido
Pego na pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima…
E a câmara muda. E a sala muda, muda…
Àfonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima…
E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trémulas… O dia
Tarde florescerá pela montanha.
E ó minha amada, o sentimento é cego…
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.
É O SILÊNCIO
É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa…
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas… Comovido
Pego na pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima…
E a câmara muda. E a sala muda, muda…
Àfonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima…
E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trémulas… O dia
Tarde florescerá pela montanha.
E ó minha amada, o sentimento é cego…
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Milano Centrale - Dijon
Milano Centrale-Dijon, carruagem 16, cama 81. 23h15. Já me tinha deitado quando entrou uma mulher africana. Pediu-me ajuda, tinha duas malas grandes e pesadas mais bagagem avulsa. Ficou apreensiva com a falta de espaço. Disse-lhe que pusesse as malas em cima de uma das seis camas do compartimento. Olhou-me, desconfiada. Eu disse-lhe que o funcionário do comboio me tinha garantido que haveria apenas quatro passageiros na cabina, pelo que achei que poderia perfeitamente utilizar uma das duas camas livres para as malas. Havia três camas de cada lado do compartimento, sobrepostas. Pareceu-me que as duas camas de baixo seriam as menos procuradas. Ela concordou. A meio da operação de carga, apareceu o terceiro ocupante do compartimento -- um homem, meio calvo, com ar simpático. Deixou terminar a estiva e ocupou a cama mais alta, à minha esquerda.
A mulher agarrou-se ao telefone e não parou de falar, em voz alta. Os passageiros italianos do compartimento ao lado vieram reclamar, indignados, porque tinham duas crianças a dormir. A mulher falou mais baixo mas não deixou de tagarelar, em Italiano e noutra língua africana. Ajudei o meu vizinho de compartimento a pôr uma enorme mochila na bagageira acima das nossas camas, junto ao tecto do compartimento. Ele, por sua vez, prontificou-se a fechar as persianas da janela e da porta, para que pudéssemos dormir. O comboio partiu às 23h35, no horário. Logo depois, veio o funcionário responsável pela carruagem, pediu-nos os bilhetes e os documentos, confesso que fiquei suspeitoso --os bilhetes, tudo bem, ele era o fiscal do comboio agora, os meus documentos…--, mas vi os outros passageiros a dá-los e dei-lhos também. O meu vizinho -- talvez percebendo a minha preocupação -- explicou-me que o passaporte era necessário para mostrar às autoridades na Suíça, onde chegaríamos dentro de duas horas. O responsável pela carruagem guarda os documentos para mostrar à polícia, evitando assim acordar-nos. Excelente serviço, achei. A nossa parceira africana precipitou-se para trancar a porta do compartimento -- achei estranho que o fizesse, mas pensei que seria normal prevenir que alguém tentasse entrar no nosso compartimento enquanto estivéssemos a dormir. Demos as boas-noites, a mulher continuou ao telefone, fazendo um esforço para falar baixo, eu adormeci.
Batem à porta, autoritariamente, com batida oficial. --Police!
4h35! Não pode ser a fronteira Suiça, pensei. --Police! On veut parler avec Madame Z’ntal.
O meu vizinho de viagem levantou-se e tentou encontrar a maçaneta para abrir a porta. Não a encontrou imediatamente, levou algum tempo a perceber onde estava e como funcionava. Conseguiu abri-la, estavam três polícias franceses à espera -- dois homens e uma mulher --, de documentos na mão. Perguntaram à mulher se tinha “papiers” para entrar em França. Ela respondeu que tinha apenas os documentos italianos -- que com certeza, já sabia estarem caducados… Mandaram-na retirar toda a bagagem do compartimento para sair do comboio. Ela não queria acreditar, tentou passar a porta sem bagagem, visivelmente desorientada e angustiada. A mulher policia insistiu que trouxesse toda a bagagem. Eu e o meu vizinho trocámos olhares de preocupação. A mulher estava numa situação difícil. Pensei que nem sequer poderia ajudá-la a retirar as malas pesadas do sitio onde eu próprio as havia posto. A polícia percebeu a dificuldade que a mulher tinha em transportar todas as malas e sacos e ajudou-a a retirar tudo para fora do compartimento e do comboio.
-- Je ne comprends pas comment il y a des personnes qui se mettent a faire des projects comme ça…-- disse o meu vizinho -- on ne joue pas avec la police française!
Fiquei confuso, pelo sono e pela situação. Tentei organizar os meus pensamentos e emitir uma opinião. Acabei por concordar que não se brincava com a polícia francesa. Quis dormir novamente mas não consegui porque o comboio ficou parado ainda durante muito tempo, fazendo um barulho contínuo estranho. A princípio, nem percebi se já estávamos a andar ou não, mas concluí que estávamos parados e assim ficámos, pelo menos, três quartos de hora. Ainda achei que a mulher voltaria. Não voltou. Pusemo-nos em marcha, finalmente, e acabei por adormecer. Acordei com o comboio a travar. O meu vizinho também acordou, disse-me que deveríamos estar a chegar a Dole, onde era suposto sermos acordados pelo funcionário do comboio. Assim foi, o funcionário bateu à porta poucos segundos depois, entregou-nos os bilhetes e documentos e desejou-nos boa viagem, em francês.
Dole é o condado de origem do conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, primeiro rei português. Tencionava visitar Dole nesta viagem, para perceber que laços culturais poderia identificar entre Portugal e a Borgonha. Estávamos a chegar a Dijon, o comboio já pasmava. Reparei que a paisagem era muito bonita, bosques, canais, rios, campos agrícolas. Pouco depois, começámos a ver alguns armazéns e outros indícios de que nos aproximávamos de uma grande cidade. O meu vizinho disse-me que ainda iria trocar de comboio, em Dijon, para chegar a Bruxelas. Adiantou que viajava muito entre Bruxelas e Estrasburgo. --Parlamento Europeu? -- perguntei.
-- Sim, disse ele.
Disse que gostava muito de viajar, por todo o mundo. Já tinha corrido todos os continentes, apaixonava-o sobretudo a América do Sul.
-- Je ne comprends pas comment il y a des personnes qui se mettent a faire des projects comme ça…-- pensei eu.
A mulher agarrou-se ao telefone e não parou de falar, em voz alta. Os passageiros italianos do compartimento ao lado vieram reclamar, indignados, porque tinham duas crianças a dormir. A mulher falou mais baixo mas não deixou de tagarelar, em Italiano e noutra língua africana. Ajudei o meu vizinho de compartimento a pôr uma enorme mochila na bagageira acima das nossas camas, junto ao tecto do compartimento. Ele, por sua vez, prontificou-se a fechar as persianas da janela e da porta, para que pudéssemos dormir. O comboio partiu às 23h35, no horário. Logo depois, veio o funcionário responsável pela carruagem, pediu-nos os bilhetes e os documentos, confesso que fiquei suspeitoso --os bilhetes, tudo bem, ele era o fiscal do comboio agora, os meus documentos…--, mas vi os outros passageiros a dá-los e dei-lhos também. O meu vizinho -- talvez percebendo a minha preocupação -- explicou-me que o passaporte era necessário para mostrar às autoridades na Suíça, onde chegaríamos dentro de duas horas. O responsável pela carruagem guarda os documentos para mostrar à polícia, evitando assim acordar-nos. Excelente serviço, achei. A nossa parceira africana precipitou-se para trancar a porta do compartimento -- achei estranho que o fizesse, mas pensei que seria normal prevenir que alguém tentasse entrar no nosso compartimento enquanto estivéssemos a dormir. Demos as boas-noites, a mulher continuou ao telefone, fazendo um esforço para falar baixo, eu adormeci.
Batem à porta, autoritariamente, com batida oficial. --Police!
4h35! Não pode ser a fronteira Suiça, pensei. --Police! On veut parler avec Madame Z’ntal.
O meu vizinho de viagem levantou-se e tentou encontrar a maçaneta para abrir a porta. Não a encontrou imediatamente, levou algum tempo a perceber onde estava e como funcionava. Conseguiu abri-la, estavam três polícias franceses à espera -- dois homens e uma mulher --, de documentos na mão. Perguntaram à mulher se tinha “papiers” para entrar em França. Ela respondeu que tinha apenas os documentos italianos -- que com certeza, já sabia estarem caducados… Mandaram-na retirar toda a bagagem do compartimento para sair do comboio. Ela não queria acreditar, tentou passar a porta sem bagagem, visivelmente desorientada e angustiada. A mulher policia insistiu que trouxesse toda a bagagem. Eu e o meu vizinho trocámos olhares de preocupação. A mulher estava numa situação difícil. Pensei que nem sequer poderia ajudá-la a retirar as malas pesadas do sitio onde eu próprio as havia posto. A polícia percebeu a dificuldade que a mulher tinha em transportar todas as malas e sacos e ajudou-a a retirar tudo para fora do compartimento e do comboio.
-- Je ne comprends pas comment il y a des personnes qui se mettent a faire des projects comme ça…-- disse o meu vizinho -- on ne joue pas avec la police française!
Fiquei confuso, pelo sono e pela situação. Tentei organizar os meus pensamentos e emitir uma opinião. Acabei por concordar que não se brincava com a polícia francesa. Quis dormir novamente mas não consegui porque o comboio ficou parado ainda durante muito tempo, fazendo um barulho contínuo estranho. A princípio, nem percebi se já estávamos a andar ou não, mas concluí que estávamos parados e assim ficámos, pelo menos, três quartos de hora. Ainda achei que a mulher voltaria. Não voltou. Pusemo-nos em marcha, finalmente, e acabei por adormecer. Acordei com o comboio a travar. O meu vizinho também acordou, disse-me que deveríamos estar a chegar a Dole, onde era suposto sermos acordados pelo funcionário do comboio. Assim foi, o funcionário bateu à porta poucos segundos depois, entregou-nos os bilhetes e documentos e desejou-nos boa viagem, em francês.
Dole é o condado de origem do conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, primeiro rei português. Tencionava visitar Dole nesta viagem, para perceber que laços culturais poderia identificar entre Portugal e a Borgonha. Estávamos a chegar a Dijon, o comboio já pasmava. Reparei que a paisagem era muito bonita, bosques, canais, rios, campos agrícolas. Pouco depois, começámos a ver alguns armazéns e outros indícios de que nos aproximávamos de uma grande cidade. O meu vizinho disse-me que ainda iria trocar de comboio, em Dijon, para chegar a Bruxelas. Adiantou que viajava muito entre Bruxelas e Estrasburgo. --Parlamento Europeu? -- perguntei.
-- Sim, disse ele.
Disse que gostava muito de viajar, por todo o mundo. Já tinha corrido todos os continentes, apaixonava-o sobretudo a América do Sul.
-- Je ne comprends pas comment il y a des personnes qui se mettent a faire des projects comme ça…-- pensei eu.
sábado, 12 de julho de 2008
Trovoada de Verão
Caem ovos do céu! Não é água, são ovos. Caem em cima dos carros e na estrada. Alguns acertam sonoramente nas campânulas dos candeiros da rua. Parece batuque de guerra em chapa de zinco. O céu está de balastro avariado, flashes consecutivos, azuis e cinzentos fazem um quadro, dezenas de quadros diferentes, não há pintor que consiga captar esta riqueza de gráficos de playstation. A maltinha foge, elas correm nas pontas dos pés para não estragar os saltos, protegendo a cabeça com o que podem, eles não correm, andam com aquele andar rápido, contrariado, de quem não tem medo de trovoadas ...
No bar, evacuaram as mesas de fora, as portadas fecharam-se, acabou tudo lá dentro, a estrada ferve. Na minha varanda estreita não chove, o vento é norte, fico de fora, vejo as pessoas dentro do bar, atrás dos vidros molhados. O happy hour na Hora Feliz, o bar cubano em frente à minha varanda, é considerado um dos melhores de Milão. Bebida não tropo cara, comida variada, música brasileira, pessoal simpático. Jantei lá, voltei cedo, vim ver a trovoada da minha varanda, sozinho.
As trovoadas ajudam a relativizar as coisas porque são uma demonstração poderosa das forças bélicas da natureza. Todos os problemas se tornam menores perante tamanha demonstração. A conjugação de elementos hostis é inequívoca: relâmpagos, chuva ou granizo, o troar poderoso dos trovões. Acabei a relativizar a própria trovoada, imaginando como, nesta mesma cidade, há pouco mais de sessenta anos, uma trovoada também poderia afinal ser um momento de paz, um momento de interrupção dos frequentes bombardeamentos dos Ingleses e Americanos, em 1944. Lembrei-me de uma trovoada seca, em Ferrara, muitos anos atrás, em plena guerra do Irão com o Iraque. Acordámos com as portadas a bater, som ensurdecedor, chovia como hoje. Apenas um dormia, um iraniano, em paz, longe das bombas da Pérsia.
No bar, tudo normal, outra vez. As mesas e as cadeiras limpas chamam os clientes. A Natureza mostrou-se uma vez mais.
"O Irão está preparado para bombardear Israel e as “32 bases militares americanas” no Médio Oriente em caso de um ataque contra o país, anunciou hoje um alto responsável iraniano, subindo o tom das ameaças trocadas nos últimos dias." In Público, online, 12 de Julho de 2008
No bar, evacuaram as mesas de fora, as portadas fecharam-se, acabou tudo lá dentro, a estrada ferve. Na minha varanda estreita não chove, o vento é norte, fico de fora, vejo as pessoas dentro do bar, atrás dos vidros molhados. O happy hour na Hora Feliz, o bar cubano em frente à minha varanda, é considerado um dos melhores de Milão. Bebida não tropo cara, comida variada, música brasileira, pessoal simpático. Jantei lá, voltei cedo, vim ver a trovoada da minha varanda, sozinho.
As trovoadas ajudam a relativizar as coisas porque são uma demonstração poderosa das forças bélicas da natureza. Todos os problemas se tornam menores perante tamanha demonstração. A conjugação de elementos hostis é inequívoca: relâmpagos, chuva ou granizo, o troar poderoso dos trovões. Acabei a relativizar a própria trovoada, imaginando como, nesta mesma cidade, há pouco mais de sessenta anos, uma trovoada também poderia afinal ser um momento de paz, um momento de interrupção dos frequentes bombardeamentos dos Ingleses e Americanos, em 1944. Lembrei-me de uma trovoada seca, em Ferrara, muitos anos atrás, em plena guerra do Irão com o Iraque. Acordámos com as portadas a bater, som ensurdecedor, chovia como hoje. Apenas um dormia, um iraniano, em paz, longe das bombas da Pérsia.
No bar, tudo normal, outra vez. As mesas e as cadeiras limpas chamam os clientes. A Natureza mostrou-se uma vez mais.
"O Irão está preparado para bombardear Israel e as “32 bases militares americanas” no Médio Oriente em caso de um ataque contra o país, anunciou hoje um alto responsável iraniano, subindo o tom das ameaças trocadas nos últimos dias." In Público, online, 12 de Julho de 2008
Não Comerei da Alface a Verde Pétala...
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz
E um bife, e queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
VINICIUS DE MORAES, 1947
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz
E um bife, e queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
VINICIUS DE MORAES, 1947
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