domingo, 13 de dezembro de 2009

Capítulo 3, Parte 1

Entraram no carro, sentaram-se, e ambos pensaram que aquela viagem não fazia sentido. E, à medida que a estrada se desenrolava, menos sentido parecia fazer. Uma eterna reta, como uma suspensão do tempo, interminável, à sua frente. De princípio, ainda diziam um ao outro, entre risos, que a reta estaria a acabar, que logo viria uma sequência interminável de curvas, como os inevitáveis dias de chuva após dias consecutivos de bom tempo. Mas não. A reta continuou, e eles também. Imaginaram, iludidos pela paisagem, que estavam girando sobre a lua, e que daí a pouco iriam ver o seu próprio rasto, e voltar a passar por cima dele, vezes e vezes sem conta, cumprindo várias circumnavegações. Mas não. A poeira do chão continuava intacta, sem marcas, sem passado, sem princípio, nem fim. A paixão que tinham um pelo outro fazia-os, talvez, acreditar que tudo era normal, e que aquela poeira fina e lunar se dissiparia a qualquer momento para deixar ver uma vegetação primaveril. A poeira não desistia, porém, e deixava-se ficar atrás deles, suspensa. A monotonia da paisagem dissipava-se apenas ligeiramente quando as sombras de nuvens dispersas espalhadas pelo chão acalmavam a luz. Mas, nem árvores cresciam ao longo daquela imensa estrada monótona, reta, e infindável; apenas uns postes de eletricidade, que ao início pareciam postes normais, mas que não eram. Por um bocado, ficaram a matutar nos postes, sem perceberem o que tinham de anormal, mas convenceram-se de que pareciam perseguir as nuvens.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Capítulo 2, Parte 3

Começou a chover. Deitei-me sobre o sofá, a descansar.

Bateram à porta, fui abrir. Briolanja entrou na sala, suspensa no meu olhar, coberta com um lençol. As tranças vermelhas jorravam do branco. Aproximou-se devagar, olhou-me, trouxe o corpo até ao meu. Senti-lhe a nudez fresca, sob o lençol. Amarrado às tranças senti-lhe o fulgor da respiração. Os mamilos tocaram-me, através do tecido branco. Ficamos ali um bocado, como dantes. Passou o lençol à minha volta, e perdi-me no tempo a percorrer-lhe as tranças de fogo.

Acordei com o telefone a tocar. Não atendi. Era Laura, com certeza. Briolanja ainda ali estava. Esperei que o telefone tocasse novamente e atendi. Era Laura. Tinha parado de chover, o arcoiris riscou o céu, sobre a casa dos gerânios e das sardinheiras. O fogo das tranças de Briolanja extinguiu-se, e todas as espirais pararam de rodar. Quando me levantei, o marcador azul caiu no chão, aos meus pés. Encontrei-te!

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Capítulo 2, Parte 2

As janelas sem cortinas revelam que já não há vida própria nesta sala, já não se requer privacidade, tudo o que aqui se passar a partir de hoje não interessa a ninguém. Já aqui não moro, sou apenas o narrador de uma história que muda de capítulo. A rua toda pode entrar pela sala, os olhos não se detêm no limite das paredes. Experimentei passar para além do limite. Olhei para além da janela, ultrapassando o que eu tinha definido como o meu próprio espaço. Aquela casa, em frente, com os gerânios e as sardinheiras no canteiro. Agora que as janelas cumprem finalmente o papel de serem uma abertura para fora, apercebo-me de que sempre ali esteve, afinal. Levantei-me, e fui à janela. A casa de Briolanja, a professora de liceu que fazia orais nos dias quentes de Julho. Briolanja e as suas tranças ruivas, belas espirais de fogo. Tantas vezes envolto naquelas tranças.

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Capítulo 2, Parte 1

Por toda a casa um imenso vazio de caixas cheias. Um mundo que se divide entre as coisas que ficam sufocadas debaixo de lençóis brancos e as coisas que partem dentro de caixas com endereço escrito (onde pus eu o marcador azul?). Ou talvez sejam dois mundos que seguem uma trajectória diferente, duas elipses, ou duas espirais com sentidos de rotação inversos, positivo contra negativo, horário contra directo. E eu sento-me numa caixa amordaçada por fita cola (tem escrito “livros”), com a certeza de que tomei a decisão certa, já cansado de passar o dia a empacotar os melhores pedaços da minha vida. Alguns ficarão. O peixe vermelho, ofereci-o à cara redonda que todas as manhãs a caminho da escola se vinha esparramar na janela da cozinha, do outro lado do aquário (os peixes vermelhos detestam mudanças, tanto tempo andam à volta do aquário que acabam por se tornar animais territoriais, como um cão de guarda que todos os dias dá a volta à quinta). Queria levar outros pedaços, recordações, coisas que senti, coisas que vi, ideias que tive ao folhear um livro, e que me mudaram a vida. Mas não sei onde estão. Alguns pedaços voltarão a aparecer quando voltar a abrir estas caixas, no destino. Outros ficarão, gravados nos riscos do soalho, ou na moldura escurecida de pó à volta dos quadros. Agora, ao olhar para as paredes, percebo como são importantes os quadros, porque me recordo de sempre os olhar sem me dar conta de que lá estavam. Agora, que a única coisa que se vê é a alma deles, delineada numa sombra de pó… E agora, que o branco dos lençóis e das paredes vazias me devolve toda a luz e os sons, num eco que anuncia uma partida.

 

domingo, 29 de novembro de 2009

Capítulo 1, Parte 2

Laura teve a impressão de que alguém os seguia. O instinto transformou o desconforto num bater de coração mais forte. Vinha gente. «António, tenho medo!» Apurou os sentidos, sentia-lhes o peso dos passos – aproximavam-se. Um grupo de pessoas que veio de qualquer lado chegou-se-lhes muito perto. De súbito, sentiu algo inexplicável, olhou para trás, por cima do ombro de António, e viu um rosto grotesco, enorme, uma máscara horrenda, salpicada de manchas, como cicatrizes de queimaduras profundas. Desviou o olhar, agarrou o braço de António. António estacou entre a figura grotesca e o corpo belo e trémulo de Laura. Abraçou-a. «Espera!» O monstro empurrou-os, ameaçador, como se não houvesse mais por onde passar. Afastou-se. O grupo passou, mudo, sem expressão, mas deixou no ar um cheiro acre de perigo, e de ameaça velada.

 

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Capítulo 1, Parte 1

Desenleavam um fio de descobertas sem fim, como da primeira vez que se sobe à montanha para ver os vales e se ouve o eco da própria voz, ou que se vê o mar quebrando-se em espuma nas fragas sob as asas das gaivotas, ou que se entra numa casa abandonada, que ali estava há anos, cheia de segredos antigos. Tinham iniciado uma viagem sem guia, nem intérprete, onde o irreal permanece inexplicável, como um sonho de criança que nos acompanha durante toda a vida. Cresceu-lhes a impressão de que é o tempo que modela tudo: as casas, os caminhos, todas as pedras, as portas e as janelas, as vidas. Não há mão de homem, o que se vê é apenas a poeira do tempo, como se as horas e os dias e os anos que passam se transformassem num sedimento, numa poeira, preenchendo todos os poros, como o fio de areia que cai de uma ampulheta. Esta poeira depositada é macia, fina, e uniforme, como a areia do deserto acarinhada pelo vento, como uma película de neve de manhã ao acordar, ou como uma pele jovem e luminosa que cobre um corpo revelando formas escondidas, voluptuosas, proibidas.

António e Laura viam um no outro a sua própria admiração. Geometrias estranhas reflectidas no rosto de cada um.

«Esta cidade, estes prédios, esta gente…».

«Que estranho, repara na cor da terra». Sentiam-se exploradores como os que descobriram palácios maias, ou pirâmides egípcias, ou jardins babilónicos.

«E este silêncio, esta mudez…». As pessoas não falavam, tampouco sorriam. Um silêncio frio de neve amplificava as mais pequenas expressões de pasmo (as cidades calam-se quando neva, tudo fica coberto por uma leve película de silêncio). Andavam pelos caminhos olhando à volta e olhando-se a eles próprios, por vezes, para confirmarem na troca de olhares o assombro do que viam.

 

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tempestade de Verão II

As sombras dos prédios atiram-se com violência umas sobre as outras, sequência infinita de reflexos, nunca iguais, é como se um fotógrafo estivesse enlouquecendo e quisesse de repente capturar todos os ângulos possíveis da mesma paisagem, disparando flashes sobre flashes, como se o mundo estivesse no fim e fosse essencial fixar aquele momento, todas as paredes, todos os carros, todas as pessoas, todas as pedras de granizo enormes que caem, violentas, sobre tudo e sobre todos, como miúdos apedrejando sem dó os gatos num telhado de zinco.

Numa varanda, um homem vê na tempestade: os nazis que marcham para norte, e os aviões americanos e ingleses que vêm da Sicília para libertar Milão: os homens de deus, largando as bombas que o seu deus não sabe largar.

O barulho é ensurdecedor, diabólico, aterrador.

Num bar, um homem atrás dos vidros enrugados pela chuva olha para o céu e cada relâmpago ilumina-lhe o medo que deixou para trás, na Pérsia, de onde fugiu por amor e por amor à vida, buscando noites com irmãos sem gritos, sem terror. Como se pode fugir de um deus omnipresente?

A igreja de San Lorenzo perde um pouco da sua história, arrancado por uma de tantas bombas que caíram sobre Milão nessa noite. Também o Pallazzo Reale perde uma parte; as bombas não caem apenas sobre os comboios que abastecem os nazis; caem sobre as pessoas, as casas delas, e elas fogem, ou morrem.

Os nazis continuam a marcha para norte, sob as chispas do céu. Milão está a ser libertada, mas os outros também fogem, receando as bombas, sem comida, sem casa, sem história.

Buscava um céu sem sirenes, sem silvos de bomba, sem terror, sem ter de sair de casa de noite agarrado à mãe e aos irmãos, sem ter de pensar que um dia também ele faria a guerra. Chamava-se ArmAm: Esperança.

Agita o copo com sumo, faz tilintar o gelo, sob a luz de um relâmpago vê numa varanda a silhueta de um homem, que acha familiar. Também o outro olha para baixo e vê Esperança. Também julgou conhecê-lo: uma noite em que viu aqueles relâmpagos pela primeira vez, e conheceu um iraniano que fugia da guerra e que não tinha medo de tempestades.

 

Milão, 4 de Novembro de 2009.

MS